Jornada Literária

Jucilei, o morcego negacionista

Jucilei

Jucilei é um morcego pacato e medíocre, não pertence nem à elite morceguista tampouco a classe mais necessitada que precisa sair pra trabalhar na melhor hora do dia, digo, da noite. Para que você conheça melhor este morcego teimoso, cabe contar que ele adora cinema, música e literatura. Ah, por falar nisso, Jucilei é um jovem escritor, autor do best-seller infanto-juvenil “Rildo, O Morcego-Homem” e outras obras menos aclamadas. Cá entre nós, bem ruins.

Acomodado de ponta cabeça no aconchego do lar, num daqueles dias preguiçosos em que a inspiração parece ter se escondido em algum lugar, encontramos Jucilei não trabalhando, mas lendo o jornal e fumando um cigarrinho. É bem verdade que culturalmente os morcegos estão mais do que acostumados a trabalhar no esquema home-office. Sem contar que, assim como os finlandeses, os morcegos não são os maiores fãs de interação social. Como um bom representante da espécie, Jucilei se sente melhor sozinho no aconchego do lar, vivendo isolado e escrevendo livros ruins. Uma forma típica de passar tempo. Ah, e tudo isso de cabeça pra baixo.

Folheando uma página e outra do jornal, o morceguinho arregalou os olhos ao se deparar com a manchete: “Morcego morde humano e é contaminado com vírus mortal”. Instintivamente o pensamento de Jucilei vai no crivo da coisa: “Que tipo de morcego sai comendo humanos por aí? Este mundo está perdido!”. Ele não tinha a menor ideia do que vinha pela frente. Não mesmo!

Num primeiro momento aquele caso isolado não pareceu muito preocupante e a vida seguiu normalmente. Cientistas e médicos levaram algumas semanas para entender os efeitos do vírus na população morceguista. Desde então 138 morcegos haviam morrido e centenas estavam em estado grave nos hospitais.

O vírus foi batizado de VIHU19 (vírus humano/19). Uma vez dentro do organismo de um morcego, o VIHU19 causa inicialmente um estado de depressão. Em poucos dias o vírus chega ao cérebro do infectado, que passa 24 horas tendo alucinações e em seguida vem a óbito. Isso não sou eu que digo, foi o famoso cientista e youtuber Bátila que explicou tudinho na sua live semanal.

Pesquisas mostraram que uma das formas de combate ao VIHU19 era tão somente o convívio social. A ideia era muito simples: com o apoio uns dos outros, os morcegos conteriam o surto de depressão, unidos. Rapidamente, os movimentos sociais criaram campanhas defendendo as aglomerações e contato direto entre os morcegos visando conter as crescentes mortes. A campanha tinha até um lema: “Morcegos unidos jamais serão vencidos”.

Foi um rebuliço! Metade da população, incluindo a imprensa, implorou para que os morcegos praticassem o convívio social, e foi assim que Jucilei parou de ler os jornais. A outra metade pouco se importou com as milhares de mortes, desde que o ganha pão deles estivesse garantido. O instinto egoísta morceguista falou mais alto e muitos não saíram de casa, afinal, a economia não pode parar! 

Imagine você, que Jucilei se convenceu de que a história de ir pra rua não passava de uma fake news deslavada! Uma falácia criada por vagabundos que não queriam trabalhar! Veja só este trecho da conversa de Jucilei com um conhecido ao telefone: 

“Me diga, Jaílson, me diga! Quem vai trabalhar neste país? A economia não pode parar! Nós trabalhamos de home-office há décadas! E agora por conta de uma depressãozinha querem que a gente vá pra rua? Eu não posso ficar sem emprego!”.

Muitos morcegos morreram, principalmente os mais pobres que se viram obrigados a ficar trancados em casa, trabalhando por um salário mínimo para aumentar a fortuna dos mais ricos. O teimoso Jucilei de fato se recusou a ir pras ruas, apegou-se às palavras do presidente que afirmou que toda aquela narrativa não passava de fantasia da imprensa. “O patriota e temente a Deus tem o dever de continuar trabalhando, é um dever cívico. Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”, ele disse.

Certa noite, Jucilei acordou com febre. Dias depois, foi abatido por um imenso desânimo e fraqueza. No décimo terceiro dia começou a ter alucinações e pesadelos. No sonho, ele implorou por sua vida e por uma vacina ao presidente, que sorriu para Jucilei e disse: “a gente lamenta os mortos, mas é o destino de todo mundo, a economia tem um preço”.

Jucilei deu um último suspiro e pensou: “E que preço, hein! Que economia o caralho! Eu quero viver!”. 

Mas já era tarde demais.

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